#2 /dev/Kico | Blogs que me inspiram

Um mundo a parte de Python, temos o Java, e uma de suas variações que é o Grails, um framework para criação de aplicações web. Acontece que muita gente não conhece e não sabe direito sobre ele, por isso convido o Kico para falar um pouco a respeito e principalmente sobre seus artigos sobre o mercado de desenvolvimento.

Kico, nos fale um pouco sobre você

Minha vida é desenvolvimento de sistemas: minha primeira experiência foi quando tinha uns 6 anos de idade e topei com o BASIC num computador chamado TK-85. Eu digitava os jogos cujo código fonte vinha impresso em livros e revistas, os modificava e me divertia horrores com isto. Passado algum tempo veio o MSX, que também tinha um interpretador BASIC, e de novo a mesma coisa. Não seria exagero dizer que esta experiência foi a origem da minha maior paixão na vida que é a programação/arquitetura/desenvolvimento/o nome que vocês quiserem que envolva criar sistemas. 🙂

Minha formação acadêmica já é fora dos moldes tradicionais para quem trabalha com desenvolvimento: meu primeiro curso (que quase terminei) foi Filosofia na UFMG. Foi a experiência mais enriquecedora da minha vida, pois foi quando *realmente* aprendi a ler, questionar, entrei em contato com os autores que moldaram minha vida de lá pra cá. O problema é que a paixão sempre foi desenvolvimento e, como todos da minha família trabalham com artes plásticas, me sentia extremamente desconfortável comigo mesmo. Não dava pra fugir: então eu fundei a itexto, que começou como um site de mesmo nome aonde as pessoas postavam seus textos em 1999 e depois passou a lidar apenas com desenvolvimento de sistemas (inicialmente focando no mercado livreiro).

Saindo da Filosofia fui para a Matemática Computacional na mesma universidade, mas acabei terminando o curso como Ciência da Computação aqui na FUMEC. No meio deste caminho acadêmico um monte de coisas ocorreram: tive a oportunidade de trabalhar nas empresas que quis, paralelamente desenvolvi diversos projetos pessoais, comecei a escrever artigos para revistas, publiquei um livro sobre Spring (agora estou terminando um sobre Groovy e Grails), criei e ajudei comunidades de desenvolvimento, dentre as quais a mais ligada ao meu nome é o Grails Brasil, houve também o meu blog, /dev/Kico, que começou como algo simples mas com o passar do tempo veio a crescer ordens de magnitude mais do que eu esperava.

E hoje atuo como consultor, escrevendo mais do que posso, entrando em algumas aventuras e me divertindo muito com tudo isto. 🙂

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O que é Grails? Quais são suas aplicações? E sua comunidade aqui no Brasil?

Grails é um framework para desenvolvimento web voltado para a plataforma Java EE. É baseado na linguagem Groovy. Já o vi sendo aplicado nas consultorias que dou nas mais variadas situações: desde sistemas para controle de documentos, mineração, telecomunicações, comércio eletrônico, automação, gestão de conteúdo, etc.

Sua comunidade no Brasil é bastante forte: fundei o Grails Brasil em 2008 pois não havia com quem conversar a respeito sobre o assunto. Na primeira semana havia 50 membros cadastrados, a maior parte aqui de Belo Horizonte. De lá pra cá a comunidade não parou de crescer: hoje contamos com quase 2000 membros e possivelmente é o maior grupo de usuários do mundo dedicado ao uso desta tecnologia.

Quais são as principais vantagens que o Java/Grails tem em relação as outras tecnologias?

A principal vantagem do Grails é o fato de ser baseado em Groovy, que é uma linguagem de programação bastante interessante voltada para a JVM. Basicamente tudo o que não gostamos em Java, Groovy resolve para nós. Isto com a vantagem de possuir uma sintaxe próxima da do Java, o que facilita bastante a sua adoção por empresas. Um grande problema que Groovy tinha era a performance, mas com o passar do tempo este problema está sendo superado a cada novo release da linguagem.

Apesar de ser parecida com Java, as diferenças do Groovy em relação ao Java são um excelente atrativo para programadores vindos de outras plataformas. O que ocorre: a plataforma Java EE é excelente, é indiscutível que se trata de uma das melhores plataformas já criadas para o desenvolvimento de aplicações corporativas. O problema é que nem sempre esta é amigável para quem está começando: dado que Groovy é dinâmico e possuí uma sintaxe mais interessante que a do Java em diversos aspectos, os desenvolvedores do Grails tiraram proveito destas características e, com isto, deram uma “cara Groovy” ao Java EE, tornando-o muito mais acessível e produtivo. Na minha opinião Grails acabou com o tédio que era programar na plataforma Java EE (http://www.itexto.net/devkico/?p=224).

Outra vantagem do Grails é que ele não reinventa a roda: é baseado em uma série de tecnologias que sabemos que funcionam bem como, por exemplo, Spring, Hibernate, Sitemesh, toda a API Java EE e muitas outras. Com isto temos uma plataforma de desenvolvimento que, apesar de mostrar uma maneira nova de usar estas APIs, mantém uma base sólida, nos permitindo criar com menos esforço sistemas extremamente escaláveis, estáveis e fáceis de manter.

O que Grails trouxe para o Java EE foi aquilo que víamos no Ruby on Rails: um ambiente de desenvolvimento extremamente produtivo, sem firulas, direto ao ponto e que nos permitia entregar com maior facilidade. Junte tudo isto aos pontos fortes do Java EE (estabilidade, escalabilidade, confiança, riqueza de recursos) e você tem uma ultra plataforma para criação de sistemas web/corporativos/integrações/etc. Aliás, escrevi sobre os ganhos sociais que Groovy e Grails nos trouxeram neste post: http://www.itexto.net/devkico/?p=1632

E o blog Itexto? De onde surgiu a inspiração e a necessidade de compartilhar seus conhecimentos?

Na realidade itexto é o nome da minha empresa: o nome do blog é /dev/Kico. As pessoas costumam confundir o nome por causa do endereço (http://devkico.itexto.com.br ou http://www.itexto.net/devkico). Ele surgiu inicialmente como um bloco de notas no qual escrevia aquelas perguntas que precisava responder com frequencia aos meus colegas de trabalho e clientes, além de também conter algumas das soluções que eu aplicava em mais de um projeto.

Com o passar do tempo acabei escrevendo menos sobre programação e mais sobre coisas que observo no mercado de trabalho (mas já aviso que vêm aí uma longa série de posts técnicos em breve!). Sinceramente não sei o que me leva a escrever: há estes momentos em que sento em frente ao computador e do nada saí um texto baseado em alguma questão que me atormenta naquele momento. Muitas vezes eu sei que estou errado naquilo que estou escrevendo, mas como sei que alguém irá comentar e discordar de mim (prefiro quando discordam), acaba sendo uma oportunidade que aproveito para entender melhor os assuntos sobre os quais trato.

É engraçado que o número de acessos ao blog tem crescido bastante, há inclusive uma versão em inglês dele (http://devkico.itexto.com.br/en) cujos posts tem sido bastante citados em sites como HackerNews, The Server Side, DZone e muitos outros. No entanto meu foco é Brasil: quando escrevo algo na versão em inglês é mais para obter um feedback de pessoas que moram fora do país.

Uma grande motivação para escrever é a percepção que tenho de que a maior parte dos desenvolvedores se foca tanto no técnico e dão tanta atenção ao imediato, ao hype (http://www.itexto.net/devkico/?p=1148) que se esquecem de fazer as perguntas fundamentais: por que isto é interessante? O que é isto? Qual o valor deste negócio? Gosto de cutucar estes pontos, e se puder no processo desmascarar visões que naquele momento (posso estar errado) se mostram completamente equivocadas (ou mesmo mal intencionadas), ponto pra mim.

Outro dia vi um tweet do Tiago Peczenyj sobre mim que confesso me deixou extremamente feliz: “eu sempre imagino o @loboweissmann com as mãos doendo, sangrando de tanto dar porrada nas nossas falsas ideias”.

Esta e a maior motivação. 🙂

Um dos artigos que gostei muito foi sobre o programador invisível, no qual você comenta sobre as tecnologias que são subjugadas pela grande maioria, tais como Cobol por exemplo?

A questão é: qual maioria? Se uso a palavra maioria, o faço dentro de um contexto. Se o contexto for as pessoas que vemos nas redes sociais falando sobre desenvolvimento e eventos relacionados, é uma coisa: outra totalmente diferente é o contexto no qual pego TODOS os desenvolvedores.

Dentro deste contexto, que é o que falo no post, esta “maioria” se mostra minoria. Este é o grande ponto na minha opinião: e o grande problema que vejo é o fato de que, ao nos focarmos no que esta real minoria fala, acabamos por reinventar a roda repetidas vezes, ignoramos um conhecimento enorme que o pessoal adquiriu no decorrer do tempo, e terminamos chamando de novidade o que pra maioria é cotídiano por décadas.

Este foi um post pra acordar o pessoal: muitas vezes nós acreditamos que o sujeito que tá nos mostrando a novidade da vez sabe de tudo e está nos vendendo algo realmente novo quando, na realidade estamos nos deparando com a mesma coisa de novo. A intenção deste post era mostrar o óbvio: o rei estava nu.

Na sua visão, como está o mercado de desenvolvimento web hoje? Isso em relação a qualidade das aplicações que estão sendo feitas e os salários dos desenvolvedores.

Um grande problema na minha opinião é o hype envolvendo novas tecnologias que, muitas vezes, nos faz esquecer de fazer questionamentos básicos. Vou dar um exemplo recente: Node.js. Inicialmente a idéia é bacana: Javascript do lado servidor. Legal: vou usar a mesma linguagem tanto no front quanto no backend. Mas não vejo muitos fazerem as perguntas importantes: será que meu desenvolvedor de frontend está capacitado para lidar com o backend? Será que ver meu mundo como um prego e minha única ferramenta o martelo uma boa opção? Será que aquilo que já sabemos há tempos, de que devemos usar a ferramenta certa pra situação certa caiu em desuso?

(não estou dizendo que Node.js seja ruim: apenas me preocupo com a ausência destes questionamentos)

As pessoas não se questionam: elas usam e pronto. Vou dar outro exemplo: em uma palestra que fui sobre Scala fiz o seguinte questionamento ao palestrante: “por que minha equipe que já está acostumada com Java deve adotar esta linguagem?”. Resposta que obtive: 30 segundos de constrangedor silêncio.

As perguntas fundamentais não são feitas. Este é o maior problema que vejo. Se você não as faz, surgem idéias como a de que você deve pagar o menor salário possível pois todo programador é igual, que você sempre deve pegar a tecnologia que acabou de sair por que é a melhor, este tipo de coisa.

Com relação aos salários: óbviamente a idéia por trás da empresa é maximizar seus lucros, sendo assim é natural que haja a tentativa de se minimizar os custos. Uma das formas é reduzindo o salário do desenvolvedor. Isto é uma boa? Não estaríamos desmotivando boas cabeças a entrarem na área? É muito raro eu presenciar por parte dos empresários um questionamento mais profundo a respeito destas questões. Normlamente o foco é baixar o salário pra maximizar o lucro. E depois não entendem por que o projeto atrasa, por que há tantos bugs, etc.

E há outro problema que ainda é tabu no Brasil e que me assusta bastante: as más condições de trabalho e a ocorrência frequente do fenômeno do assédio moral. No Brasil sou uma das únicas pessoas que escreveu publicamente sobre isto (http://www.itexto.net/devkico/?cat=63). O assunto ainda é um tabu. Quando tornei público meu TCC sobre o assunto (http://www.itexto.net/devkico/?p=1385) me foi dito que eu jamais conseguiria outro emprego. Acredito que isto ilustre bem a situação.

Agora, sinceramente? Acredito que o salário quem faz não é o mercado, mas o indivíduo. Se você se esforça, corre atrás de verdade, é honesto e sabe o que está fazendo uma hora ou outra dá certo.

E o que você acha sobre Python?

Meu conhecimento de Python é bastante limitado. Eu a uso no trabalho atual para escrever simuladores de alguns equipamentos com os quais preciso interagir e no passado usei o Jython no WebLogic. Tirando isto, brinquei um pouco com um framework chamado Flask, que achei MUITO interessante, mas apenas isto.

Me pareceu um ambiente de desenvolvimento bem interessante, mas nunca usei com grande intensidade pra poder falar com segurança.

Para finalizar gostaria que você comentasse de um post seu falando sobre piratear livros e materiais de desenvolvimento. Por que há ainda essa prática que é tão prejudicial para o crescimento de materiais de qualidade no mercado?

Por que é fácil e o pirata não tem consciência do trabalho que dá gerar este material.
Por que não há respeito algum pelo autor.
Por que não há visão de médio e longo prazo: pagar pelo material é investir. Você está fornecendo ao autor meios para que melhore aquele trabalho.

Aliás, é engraçado: as pessoas dizem com facilidade que algo é caro, mas com dificuldade extrema justificam esta afirmação, já reparou isto? Já tive um diálogo assim uma vez:
Seu livro de Spring que custa R$ 29,90 é caro.
Mesmo, por que?
Por que sim.

Quem pirateia simplesmente não sabe o que significa a palavra valor. Esta é a verdade.

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2 comentários em “#2 /dev/Kico | Blogs que me inspiram

  1. Perfeito Kico.

    Pirataria é um câncer na economia. Já baixei diversos livros, e percebi o erro em não devolver ao autor a gratificação pelo seu trabalho. Hoje vejo com outro olhos e procuro adquirir o que realmente preciso.
    Uma coisa que a palavra pirataria esconde é o verdadeiro sentido “roubo”. Se você não paga pelo trabalho de alguém, porque exige que paguem pelo seu?

  2. O Kiko é um cara MUITO cabeça. Se os desenvolvedores do mercado brasileiro parassem de babaquice como “Mamãe eu quero ser desenvolvedor rockstar”, flamewars entre linguagens e frameworks e guerrinhas de egos, teríamos um mercado com mais gente como ele: Pessoas e profissionais melhores.

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